Hoje é o primeiro aniversário do meu pai que passamos sem ele. Estranho como parece que eu estava completamente perdida em relação aos dias desse mês, mas foi abrir os olhos e eu sabia exatamente que dia era hoje.

Como de costume, tomei meu banho, me arrumei, peguei meu café da manhã (que só tomo mais tarde) e fui com meu marido de carro até o metrô. Chegando lá, já com lágrimas escorrendo pelo rosto, olhei pra ele e falei baixinho:
– Hoje é aniversário do meu pai.
– Eu sei…
Eu ia sair do carro quando ele continuou, “lembra da festa do chapéu na casa do seu pai?”.

Rimos como cúmplices de uma peraltice.

*

A festa do chapéu foi uma invenção do meu cunhado no aniversário dele. Ele resolveu que como ingresso para entrar em sua comemoração, cada convidado tinha que usar o assessório sob pena de perder o direito à participação. Como de costume, fizemos a reunião na casa do meu pai, já que era a mais espaçosa.

Minha família, que adora uma ideia diferente, entrou literalmente de cabeça na brincadeira. Vasculhamos nossos armários, fizemos empréstimos, demos um jeito, mas todo mundo estava com o seu aparato na cabeça para a festa, que foi engraçadíssima, diga-se de passagem.

Não lembro quem foi que deu um conjunto de calotas para o Fusca que meu cunhado tinha na época, em pouco tempo, elas já estavam na cabeça dos convidados para uma sessão de fotos.

A bagunça rolava noite adentro, quando depois de várias cervejas e muitas risadas, alguém, não sei dizer quem, olhou para o quadro de Jesus e Maria – herança de minha já falecida avó, era uma peça muito antiga, com aquela moldura dourada cheia de rococós. Tinha um fundo que devia ser de feltro e as imagens não eram pintadas, mas feitas de porcelana, muito delicadas, que saiam do quadro (sim, eu tinha medo dessas imagens quando pequena) – sismamos que Jesus não estava de chapéu, ao contrário de Maria, que ao menos achara um manto para cobrir a cabeça em respeito ao aniversariante (vale esclarecer que minha família é dividida basicamente entre ateus e agnósticos. Dá para contar nos dedos os que frequentam alguma religião). Pronto, passamos então a desenvolver ideias para resolver a situação. Jesus não poderia continuar assim, sem nada na cabeça.

Depois de muitas alternativas sem sucesso, chegamos ao veredicto: temos que fazer um chapéu de papel para ele. Nesse momento, meu pai me arranja um pedaço de papel da Souza Cruz (credo!) e confeccionamos em poucos minutos um lindo chapéu desses que as crianças usam para desfilar pela escola para comemorar o Sete de Setembro.

Jesus ganhou seu adorno de cabeça – para que ninguém nos julgue como pecadores, foi feito com muito carinho – e a festa continuou animada. Mal sabíamos nós o que nos esperava como resposta de nossa inocente brincadeira. Em poucos meses, uma sucessão de acidentes atingiu minha família. Detalhe, todos estavam naquela festa.

Primeiro foi meu sobrinho, que quebrou o braço após cair de uma rampa em um clube de São Paulo e fraturar o braço. O moleque escapou por pouco de uma cirurgia (talvez em razão da pouca idade, o que lhe garante um poder de regeneração celular bem melhor de nós, velhos mortais). Mas não impediu de ter que passar duas vezes pelo sofrimento de colocar o osso no lugar.

Depois disso, minha irmã caiu de moto e ralou o joelho e outras partes da perna de tal jeito que ela só tinha uma posição para dormir, quase não conseguia andar e sofreu até a regeneração da pele, da qual seu joelho sentiu muita falta durante um bom tempo.

Na sequência foi minha vez de parar no hospital, após um tombo muito bobo no meio da rua. Coloquei dois pinos no Fêmur e tive uma recuperação de mais de oito meses (sim, eu sei, quem mandou confeccionar o chapéu de Cristo).

Duas semanas depois, meu cunhado, o aniversariante, cai da moto e quebra dois dedos do pé. Mais uma cirurgia e um fio de metal no dedo.

Quando achamos que nada mais poderia acontecer, afinal, já tinha muita gente estropiada, minha cunhada é atropelada por um motoqueiro e coloca, não um pino ou dois, mas uma placa com diversos pinos e outros trecos para reconstruir o osso do braço. Mais de um ano de recuperação.

Tudo isso me fez aprender uma grande lição: definitivamente, Jesus odeia chapéu!

Henfil

Mãe-manhê,

Seis longos anos depois, me tiraram o rótulo.

Despiram, sacaram, disseram “sai dessa”.

Seis anos. Só agora me falaram que não tem nada disso. Que posso tirar o termômetro do sovaco, a bolsa de gelo da testa, a bombinha de asma da bolsa.

Mãe, a médica mandou avisar que aqui não tem nenhuma cardiopata, que nem valvopata tem aqui. Disse pra parar de sentir falta de ar, taquicardia, inquietação. Que tem nada disso aqui não.

Mãe, seis anos depois, alguém olhou nos meus olhos e me disse que esse negócio de mesa de cirurgia em dez anos, que esse negócio de tomar cuidado com exercício, que essa coisa de gravidez ser arriscada… disse que tudo isso é intriga da oposição. Coisa de médico frouxo.

Vamos aproveitar, amanhã, que tem o bolo da mana e da prima, vamos comemorar. Chama todo mundo!

É, dona Aurinha, seis anos depois vamos poder colocar a cabeça no travesseiro e descansar como bebês de riso fácil.

Liga, não, manhê. Sei que cê tambémtava lá, mas é que tava lendo Henfil e fiquei inspirada.

Beijos da sua filha de bom coração. 😉

Que a partir de hoje, você aprenda que não precisa ser super – super mãe, super esposa, super mulher.

Que apesar disso, você seja uma boa mãe, mas saiba que vai errar e isso não será uma catástrofe.

Que você entenda que não precisa carregar o mundo nas costas. Existem outras pessoas que podem dividir esse trabalho com você. O serviço vai se tornar muito mais leve.

Que você enxergue que não tem que ser a mais bonita, nem a mais inteligente.

Que você perceba que se você está doente, alguém vai poder fazer as coisas por você.

Que você saiba que sexo é bom, se for feito por prazer e não por obrigação.

Que você tenha certeza que só você tem total poder de decisão sobre seu corpo.

Que você entenda, de uma vez por todas, que não há nada de errado em não dar conta do recado – da casa, do trabalho, dos filhos, da mãe e do marido ao mesmo tempo.

Que você perceba que você não é nenhuma deusa, nenhuma fortaleza, nenhum ser dotado de poderes sobrehumanos.

Que você se permita ser apenas um ser humano, com suas qualidades, seus desejos e suas fraquezas.

Que a partir de hoje, você seja apenas você e mais nada. Pois ser você já é o suficiente, gostem os outros ou não.

Que, principalmente, você não seja cobrada por pensar dessa forma.

Quando todas as mulheres sentirem que têm esse direito e realmente tiverem ele em suas mãos, eu vou poder comemorar o dia de hoje.

Enquanto isso for apenas um sonho, esse vai ser somente mais um dia de luta para mim. Luta para poder ser tão humana quanto os homens podem ser.

Juvenal estava na idade para casar. Era o que sua mãe, dona Candinha, não cansava de dizer. Era sua máxima preocupação. O que seria de seu filho? Um homenzarrão pendurado nas costas da família.

Ela tanto fez, tanto falou, que Juvenal achou por bem resolver a história de uma vez. Fez questão de arranjar uma bela e doce menina, um sonho de nora para dona Caca, e logo marcou o casamento.

Aliança no dedo, casa montada. Estava na hora de aumentarem a família, multiplicarem, procriarem. E assim fizeram. Tudo como manda a tradição. Tudo para não ter de escutar as lamentações de sua mãe.

Mas Juvenal fazia tudo como se aquilo fosse sua cina. Uma obrigação a que todos os homens devessem passar.

A rotina do dia a dia em casa e no trabalho, ele só desafogava de um jeito: mulheres. Para isso não precisavam ser as mais belas, nem as mais vaidosas. Bastava apenas estarem disponíveis.

E para essas coisas, Joana, a nova recepcionista da empresa, estava mais do que disponível, estava superaberta. Ela era adepta do sexo, não importava com quem, onde ou quando. Tinha sempre uma carta na manga para poder marcar seus encontros fortuitos: liberava o futebol do marido, pegava dispensa do trabalho, usava até a mãe como desculpa.

Ninguém sabia como, mas ela era perita em dar um jeitinho para seus inúmeros encontros. Inúmeros mesmo. Só os fixos eram três, fora os ‘volantes’ – aqueles que se revezavam e não tinham periodicidade – esses eram incontáveis.

Quando Juvenal a conheceu, pensou logo. “É de uma dessas que eu preciso. Não vai ficar no pé, não vai se apaixonar. Sem dores de cabeça. E o melhor… não é de se jogar fora. Que maravilha!”.

Logo começaram a se encontrar. Tudo, lógico, sem compromisso, como ele queria.

Mas os encontros furtivos começaram a virar rotineiros e o que era para ser só uma transa qualquer, virou paixão avassaladora.

Quando Juvenal percebeu, já era tarde. Estava de quatro. Caidinho, caidinho pela moça. Fez ela jurar lealdade, ou melhor, fidelidade. Além dele, só o marido teria permissão para tocar aquele corpo e a proporcionar prazer a ela. Ninguém mais.

Joana jurou. Juro de pé junto, juntinho. Jurou por Deus. Jurou pela mãe mortinha e enterrada. Porém, como costuma-se dizer, enquanto as outras iam com o fubá, Joana voltava com o bolo.

Por essa fama da moçoila, dizem por aí que durante a promessa, Juvenal só esqueceu um detalhe. Não verificou se Joana cruzava os dedos por baixo dos lençóis.

Marcos era daqueles homens que têm como maior inimigo da dieta o casamento. Nos primeiros dez anos, engordou cerca de trinta quilos. E nos primeiros anos dos próximos dez, já dava sinais de que bateria o recorde bem antes do tempo.

Mas sua falta de forma não o impedia de babar a cada rebolada das gatinhas na praia. Era passar um fio dental bem recheado para que ele torcesse o pescoço. Sua esposa, quando se deparava com tal atitude, não se furtava a aplicar-lhe um belo corretivo em forma de tapa, daqueles bem estalados no braço do marido.

Ele, por sua vez, esfregava o local atingido fazendo cara de quem não gostou e soltava um bordão. Aliás, Marcos adorava bordões, mas esse era seu preferido: “Olhar não arranca pedaço”. Era, então, a vez da esposa franzir a testa em desacordo.

Mas um certo dia – sempre acaba tendo um dia desses – a esposa, que era modista, precisou de um favorzinho do marido. Ligou para ele já no final do expediente e falou com aquela voz de pidona, que só as mulheres sabem fazer:

– Oi, amor? Amooooor…

– Fala.

– Preciso te pedir uma coisiiiinha.

– O que é?

– Então, benhêe, tenho que levar as roupas das meninas para o desfile que vai ter amanhã. Será que você poderia emprestar sua caminhonete? Só hoje? Pode ser?

– Tá, tá bom. Mas olha, toma cuidado, hein! Não quero um arranhão na minha garota!

– Pode deixar, eu sei me cuidar.

– Tô falando da caminhonete.

– Ahhhh….

Marcos saiu do escritório e foi direto para o atelier da esposa. Enquanto entregava a chave do carro, viu sair de dentro do provador um dos aviões mais bem equipados que já havia visto, assim, a olho nu.

E se o olho estava nu, a garota ficou no quase. Para tanto, faltava apenas tirar um pedaço de pano que cobria os seios e amarrava atrás e outro que sumia por entre as nádegas daquele caça supersônico.

Marcos não pensou duas vezes. Quando ela passou, virou o pescoço, quase como naquela cena da protagonista do exorcista. Tá. Tá bom, nem tanto. Não tanto, mas o bastante para que a sua mulher desferisse mais um tapa, dessa vez na perna dele.

O único porém – e poréns também costumam acontecer – é que ela estava com os trabalhos a pleno vapor e com uma tesoura de costura na mão e que, além de tudo isso, o tapa não pegou exatamente na perna, mas numa região um pouco mais acima e um pouco mais dolorosa.

Ele deu um urro de dor. O sangue começou a brotar por baixo da calça. A esposa, correu com ele para o hospital. Graças a Deus, ou à calça jeans grossa, ele teve apenas que levar alguns pontos, mas a esposa precisou dar satisfações à polícia, que só acreditou na sua história quando o marido confirmou os fatos.

Depois dessa, ela parou de esbofeteá-lo a torto e a direito, as gostosas não foram mais importunadas pelos olhares de Marcos, que por sua vez resolveu trocar de bordão. Agora o seu favorito é dito – assim mesmo, um tanto incompleto, mas totalmente compreensível para qualquer cidadão que queira manter o seu intacto – “quem tem… tem medo”.

 uma crônica à lá Xico Sá

 Foi-se o tempo em que as esposas mal-amadas choravam sozinhas suas amarguras. Tempos nos quais, quando muito, tinham a sorte de serem cortejadas dentro de suas próprias casas por algum “amigo” Don Juan.

“Amigo” – assim, com aspas mesmo – que não se intimidava em fazer os galanteios nas barbas do marido de sua pretendente. O corno, por não mais enxergar muita utilidade nos dotes da consorte, percebia tarde demais a galhada a crescer no meio das frontes.

Hoje, a mulher mal-amada, a mulher cujo marido não está fazendo questão de dar conta do recado, – recado que não fica mais como antes, pendurado na geladeira; porém está sinalizado na caixa de mensagens do celular, nas páginas dos livros dos rostos visíveis em qualquer computador, ou nas caixas dos gmails da vida. Enfim, o recado é dado de jeito ou de outro, mas o cidadão insiste em fingir que foi parar na caixa de spans das emoções.  – a mulher desse cabra, não vai sofrer calada, não vai derramar as lágrimas por sobre os bordados manufaturados nos finais de tarde solitários das moçoilas, como se fazia nos tempos em que as tarefas femininas se concentravam nos limites das paredes de seus lares.

A esposa de hoje trabalha fora, estuda, viaja. Ao invés de enxugar os olhos nos panos de mesa lindamente decorados por suas próprias mãos, a cônjuge mal-amada prefere usar os guardanapos das saqueritas feitas pelas mãos másculas de um barman de barriga tanquinho de uma casa noturna da moda.

Essas mulheres não mais precisam ficar na varanda da casa de fazenda, como nos romances de outrora, à procura do amor que não encontram na própria alcova. O recado que foi direto para a lixeira do outlook da indiferença do marido, será favoritado e logo compartilhado por algum marmanjo que esbanja créditos no iphone da generosidade com as moças.

Foi o que aconteceu com Bárbara. Casada há vinte anos, viu suas mensagens serem esquecidas na HD das vaidades mundanas. Cansou. Foi procurar um destinatário que não transformasse seus sentimentos em mensagens não lidas.

Mal sabia ela, que o mesmo smartphone, que recebeu e enviou tantas mensagens melosas e sedutoras, seria capaz de compartilhar um vídeo um tanto constrangedor para uma mãe de família no youtube das verdades nada animadoras.

Tudo, absolutamente tudo, havia dado errado.

Andréa não via motivos para sair da cama.

Não conseguira o empréstimo para saldar suas dívidas, não vendera um só apartamento nos últimos quatro meses, não poderia mais continuar pagando o curso de idiomas.

Aquele filho da puta tinha deixado ela sem nem dizer o porquê e o safado do ex-marido não pagava pensão pelo segundo mês consecutivo.

Não queria, não tinha mais forças para continuar.

E quando Andréa achava que nada mais poderia acontecer para piorar, muito menos para melhorar, o seu dia, sua filha mais nova entra como um furacão no seu quarto com sangue escorrendo da boca:

– Mãe! Mãe! Mãe!

– Meu Deus! O que aconteceu? Como você se machucou?

A menina estende a mão com um dentinho pequenininho e todo ensanguentado:

– Meu dente caiu!!! – disse a filha, abrindo o sorriso banguela mais lindo que Andréa já havia visto em toda sua vida.

Se conheceram ainda meninos. As bodas de prata estavam se aproximando. Se contassem também namoro e noivado, estariam nos vinte e oito anos juntos.

Anos de companheirismo. Anos de cumplicidade. Anos de puro amor e paixão.

Eram o casal perfeição. O casal em que todos se espelhavam. Dos mais velhos aos mais jovens, todos os invejavam e queriam poder ter uma relação tão duradoura e feliz como a deles.

Uma data tão especial não poderia passar em branco. Decidiram dar uma festa para comemorar tantos anos de união.

Todos os parentes reunidos. Até os que vivem em outras cidades vieram. Até aquele primo, que foi morar no exterior, conseguiu conciliar suas tão esperadas férias para rever a família com o ensejo.

Todos os amigos – os da turma da faculdade, os colegas de trabalho, até alguns amigos da infância dos dois – foram chamados.

A festa estava cada vez mais animada e a conversa girava em torno da tão espantosa harmonia entre os dois:

– Como vocês conseguem? – perguntou o primeiro.

– Qual o segredo? – quis saber a moça sonhadora.

– Depois de tantos anos, tão amorosos e apaixonados… – complementou a anciã.

– Conta pra gente, vai. Qual a receita? – questionou ansiosa a prima que ficou para titia.

– Os dois se entreolharam e balançaram mutuamente a cabeça afirmativamente:

– Está bem, vamos contar…

– Conta! Conta! Conta! – gritavam todos, com os copos para o alto, num misto de alegria e euforia.

– Então… temos um acordo. Toda semana saímos para jantar e depois damos uma esticadinha num motel. – revelou o marido.

– Hum… – fizeram os assanhadinhos.

– Ah, mas é só isso? – disse a cunhada descrente no amor.

– E, mesmo assim… vocês não acabam caindo na rotina? Sabe como é, a mesma mulher, as mesmas posições, a mesma coisa de sempre… – falou o machão da família.

– É verdade. Boa pergunta! – exclamou uma tia com experiência de quatro casamentos.

– Até agora não. – disse a esposa – afinal, nosso acordo é bem claro. Ele vai todas as terças-feiras e eu vou todas as quintas.

A velharada da família ficou horrorizada. As mulheres na idade da menopausa começaram a sentir calores. Algumas, mais jovens, fingiam desmaiar para não ter de encarar os maridos que esperavam um sinal de aprovação. Outras desconversaram, enquanto os maridos perguntavam se agora elas preferiam se conformar com o que tinham em casa. Alguma boa alma aumentou o som para abafar o burburinho.

Daquele momento em diante, todos os convidados resolveram falar sobre assuntos menos polêmicos como política e religião.

Adriana amava o marido, Roberto, que passou a noite num motel caro com a secretária da firma.

Beatriz, amava o patrão. Por isso, preparou o melhor jantar de sua vida. Pôs velas na mesa, aromatizador na sala, flores no hall de entrada e champanhe no balde de gelo. Pegou o dinheiro que ele havia deixado na gaveta e saiu do apartamento antes que ele chegasse com a esposa.

Cláudia só descobriu o quanto amava Pedro, quando ele a pegou na posição de frango assado com um negão que tinha os países baixos três vezes maior que os dele.

Daniela amava João e também amava Leandro. Mas não podia amá-los ao mesmo tempo. Por isso, marcou com um no almoço e com outro no jantar.

Emanuelle também amava dois, mas ela podia amá-los ao mesmo tempo. Só precisavam de uma suíte com uma banheira grande.

Fabiana amava Gabi. E as duas eram muito felizes.

Hebe amava o dinheiro. O problema é que ela só tinha ele, se aguentasse o marido do lado.

Isaura teve um amor de infância, mas nunca se casou.

Joana nunca amou a niguém. Só a si mesma.

Laura amou Adalberto, depois Bruno, depois Carlos, depois Danilo, depois Edvaldo, depois Fernando, depois Gustavo. Dizem que hoje ela está na letra W… pela terceira vez.

Manu desistiu de amar.

Neide só vê dor no amor.

Ondina morreu, deixando Otávio sem o amor de sua vida.

Patrícia ama sempre, todo dia. Cada dia um diferente.

Raíssa finge que não ama Paulo e isso faz com que ela o ame cada vez mais.

Sandra é amada por vários. Mas nenhum está a sua altura. O que faz com que ela continue sozinha.

Talita ama o marido, mas só consegue prazer fora da relação.

Úrsula se separou aos sessenta anos e descobriu o que é o amor com Renato, seu novo namorado.

Valesca achava que amava Maurício, mas era só possessão.

Walkíria ama seu marido e é amada por ele há mais de trinta anos. Mas todo mundo acha que é tudo falsidade.

Yasmin procura o amor…

…que Zuleika tenta demonstrar a ela há mais de dois anos.

Hoje, ela queria se sentir a mais vadia das vadias. PUTA – assim, com letras garrafais.

Queria ser cobiçada por caminhoneiros, ser cantada por pedreiros. As piores palavras, as mais chulas. Precisava de todas elas sussurradas ao pé do ouvido.

Vestiu sua menor saia, seu decote mais provocante. Foi buscar aquele batom vermelho, há muito guardado numa caixa, junto a inúmeras outras quinquilharias. Estava grudento de tanto tempo que ficara guardado.

Melhor ainda, pensou ela. Bem ‘rampeira’. A palavra saiu de sua boca, com a letra M grudando os lábios com o batom melado.

Exagerou nos brincos, nas pulseiras e colares. Encheu-se de badulaques. Arrumou os cabelos com um enfeite extravagante. Os olhos ficaram carregados com o delineador azul-turquesa.

Pegou sua sandália de festa. Encharcou-se de perfume, do mais doce, do mais enjoado. Era isso, estava já na porta do quarto quando lembrou da cinta-liga. Como poderia esquecê-la?

Agora, sim, pronta! Pegou sua bolsa e foi para o bar. Não era um boteco qualquer. Lá se juntou a tantas outras que circulavam como ela. Homens lhe diziam obscenidades, mulheres fuzilavam seu corpo com um olhar de inveja.

Parou numa mesa engordurada por restos de porção de calabresa, pediu uma cerveja e ficou ali, bebendo e esperando seu cliente.

Foi quando deteve seu olhar na porta. Lá estava ele.

Um senhor de cabelo grisalho, camisa de estampa duvidosa, meio aberta, mostrando a corrente que roçava nos pelos do peito. Um enorme relógio no pulso esquerdo e um velho mocassim marrom.

Imediatamente jogou os cabelos de lado, cruzou as pernas e encarou-o com um sorriso provocante. Ele, fingindo não prestar atenção naquelas pernas roliças para fora da saia, puxou o maço do bolso, estufou o peito e acendeu um cigarro displicentemente. Olhou em volta, comparou decotes, saias e saltos. Mas foi na mesa dela que ele fixou sua atenção.

Ela mordia os lábios cheios de tintura vermelha. Ele continuou sério, foi até a mesa, pegou uma cadeira, sentou como cowboy, com o encosto entre as pernas. Não puxou papo, chamou o garçom, pediu mais uma cerveja e uma porção de fritas.

Só depois de o garçom trazer a cerveja e encher os dois copos, que resolveu conversar. Em menos de dois minutos, já estavam trocando palavras picantes. Ele perguntou o preço, uma rápida negociação levou-os a um motel de estrada.

Lá, fez todas as vontades dele e, quanto mais ele lhe chamava dos piores nomes, mais ela gostava. Enquanto tocava Entre Tapas e Beijos numa FM qualquer, eles colocavam em prática a letra da música sertaneja.

Depois de uma boa chuveirada, na qual teve bastante trabalho para tirar a maquiagem carregada, colocou um jeans, uma camiseta e perguntou ao marido:

 – Quer voltar para casa?

– Acho melhor, meu amor.

– Será que as crianças deram muito trabalho para a mamãe?

– Com certeza.

E foi a melhor homenagem à Marcha das Vadias de que eu tomei conhecimento.