Na volta de uma viagem ao litoral norte do estado, Rodolfo sentiu o carro dar um solavanco e engasgar, como num último suspiro.
Estava numa daquelas inúmeras descidas de serra, cheias de curvas, no meio da noite. O celular não dava sinal e o carro muito menos.
Abriu o capô, remexeu aqui, sujou as mãos de graxa ali. Nada. Não havia absolutamente nada que ele pudesse fazer naquele momento.
Tentou achar algum telefone de serviço e, depois de terríveis subidas e descidas, resolveu que teria de achar ajuda por ali mesmo. Deveria ter uma casa, alguma vida naquelas redondezas. Viu uma rua de pedras escura, esburacada e estreita.
No início, parecia apenas uma trilha, pois só havia mato nas laterais. Mesmo assim, resolveu prosseguir para ver onde aquilo ia dar.
Mais à frente, pequenas casinhas coloridas, lindamente decoradas, com jardins cheios de perfumosas flores, foram tomando as laterais da ruazinha. Quando o caminho chegou ao fim, uma pequena praia deserta se abriu à sua frente.
Ouviu ao fundo uma música alegre e dançante e a voz de algumas mulheres que riam e cantavam docemente.
Foi se aproximando e conseguiu encontrar várias moças, que dançavam seminuas em volta de uma fogueira. Lindas mulheres de cabelos compridos, remexendo sensualmente seus corpos esculturais.
Chegou perto sem saber como seria recebido por aqueles seres encantadores. Foi quando uma mulata que deve ter saído da capa de um dos Lps do Sargentelli foi ter com ele.
Rodolfo não teve tempo para pensar. Quando deu por si, estava cercado daquelas deusas, que, ao escutar seu triste relato de viagem, se derretiam em:
- Ahhhh!
- Tadinho!
- Pobrezinho!
E tantas outras exclamações femininas.
Envolto naquela atmosfera onde o ar era feito de pequenas partículas de belos seios, lindos seios – grandes, pequenos, redondos, separados, juntinhos, levemente vesguinhos, empinados, displicentes, com auréolas claras, escuras, pequenas e grandes- não se preparou para a pergunta fatal:
- O que quer que façamos por você?
- Como assim?
- Faça um pedido…qualquer pedido.
- Qualquer um?
- Podemos realizar seus mais loucos desejos.
- Mesmo?
Elas balançaram a cabeça afirmativamente.
Rodolfo começou com fantasias sexuais das mais comuns, passou para algo mais ousado e, no sétimo dia, quando não tinha mais o que inventar, nem de onde tirar forças para continuar, pediu para descansar:
- AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
A decepção foi geral, como uma torcida que não acredita no pênalti perdido:
- Mas, meninas, até Deus descansou no sétimo dia!
- Poxa, mas nem uma… – a garota terminou a frase ao pé do ouvido dele.
- Não.
- Podíamos…
- Não.
- Tá, você dorme uma horinha e depois…
- Não!
- E se…
- Por favor, NÃO!
As meninas saíram tristonhas. Umas riscavam o chão, outras jogavam pedrinhas no mar, as restantes arrancavam folhinhas das árvores.
*
Nem vinte minutos depois.
*
- Mas você deve ter algum pedido.
- Qualquer um…
- Ah, vai…
- Só mais unzinho…
- Só um!
E quando ele estava prestes a pedir socorro:
- Amor! Môo! Acordaaa!
- Hein? Hãn?
- Acordaaa! Tá na hôora.
Ele puxou sua mulher para a cama. Começou a beijá-la:
- Para! Paara! Tá me amassandôo!
- Ah, vem cá. Só um pouquinho…
- Nãum-ô, Rodolfôo!
- Por favor…
- Nãuô! Tô atrasada!
Ele deu um beijo apaixonado:
- Te amo.
Levantou rápido, afinal não podia correr o risco de pegar no sono novamente e ter de encarar aquelas loucas insaciáveis. Deus o livre!