Na volta de uma viagem ao litoral norte do estado, Rodolfo sentiu o carro dar um solavanco e engasgar, como num último suspiro.

Estava numa daquelas inúmeras descidas de serra, cheias de curvas, no meio da noite. O celular não dava sinal e o carro muito menos.

Abriu o capô, remexeu aqui, sujou as mãos de graxa ali. Nada. Não havia absolutamente nada que ele pudesse fazer naquele momento.

Tentou achar algum telefone de serviço e, depois de terríveis subidas e descidas, resolveu que teria de achar ajuda por ali mesmo. Deveria ter uma casa, alguma vida naquelas redondezas. Viu uma rua de pedras escura, esburacada e estreita.

No início, parecia apenas uma trilha, pois só havia mato nas laterais. Mesmo assim, resolveu prosseguir para ver onde aquilo ia dar.

Mais à frente, pequenas casinhas coloridas, lindamente decoradas, com jardins cheios de perfumosas flores, foram tomando as laterais da ruazinha. Quando o caminho chegou ao fim, uma pequena praia deserta se abriu à sua frente.

Ouviu ao fundo uma música alegre e dançante e a voz de algumas mulheres que riam e cantavam docemente.

Foi se aproximando e conseguiu encontrar várias moças, que dançavam seminuas em volta de uma fogueira. Lindas mulheres de cabelos compridos, remexendo sensualmente seus corpos esculturais.

Chegou perto sem saber como seria recebido por aqueles seres encantadores. Foi quando uma mulata que deve ter saído da capa de um dos Lps do Sargentelli foi ter com ele.

Rodolfo não teve tempo para pensar. Quando deu por si, estava cercado daquelas deusas, que, ao escutar seu triste relato de viagem, se derretiam em:

- Ahhhh!

- Tadinho!

- Pobrezinho!

E tantas outras exclamações femininas.

Envolto naquela atmosfera onde o ar era feito de pequenas partículas de belos seios, lindos seios – grandes, pequenos, redondos, separados, juntinhos, levemente vesguinhos, empinados, displicentes, com auréolas claras, escuras, pequenas e grandes- não se preparou para a pergunta fatal:

- O que quer que façamos por você?

- Como assim?

- Faça um pedido…qualquer pedido.

- Qualquer um?

- Podemos realizar seus mais loucos desejos.

- Mesmo?

Elas balançaram a cabeça afirmativamente.

Rodolfo começou com fantasias sexuais das mais comuns, passou para algo mais ousado e, no sétimo dia, quando não tinha mais o que inventar, nem de onde tirar forças para continuar, pediu para descansar:

- AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

A decepção foi geral, como uma torcida que não acredita no pênalti perdido:

- Mas, meninas, até Deus descansou no sétimo dia!

- Poxa, mas nem uma… – a garota terminou a frase ao pé do ouvido dele.

- Não.

- Podíamos…

- Não.

- Tá, você dorme uma horinha e depois…

- Não!

- E se…

- Por favor, NÃO!

As meninas saíram tristonhas. Umas riscavam o chão, outras jogavam pedrinhas no mar, as restantes arrancavam folhinhas das árvores.

*

Nem vinte minutos depois.

*

- Mas você deve ter algum pedido.

- Qualquer um…

- Ah, vai…

- Só mais unzinho…

- Só um!

E quando ele estava prestes a pedir socorro:

- Amor! Môo! Acordaaa!

- Hein? Hãn?

- Acordaaa! Tá na hôora.

Ele puxou sua mulher para a cama. Começou a beijá-la:

- Para! Paara! Tá me amassandôo!

- Ah, vem cá. Só um pouquinho…

- Nãum-ô, Rodolfôo!

- Por favor…

- Nãuô! Tô atrasada!

Ele deu um beijo apaixonado:

- Te amo.

Levantou rápido, afinal não podia correr o risco de pegar no sono novamente e ter de encarar aquelas loucas insaciáveis. Deus o livre!

Ela nunca tinha tomado um sundae na vida. Mas isso não era o fim do mundo. Não para uma garotinha de nove para dez anos de idade. Porém, na primeira oportunidade que o pai lhe deu, ela aproveitou:

- O que você quer fazer hoje?

- Quero tomar um sundae.

- Um sundae?

- É. De chocolate! Nunca tomei um…

- Nunca?

- Nunquinha…

E lá foi o pai, dirigindo pelas ruas da cidade, num quente domingo de sol, tentando pensar onde poderia levar sua filha para se deliciar com tão sonhada sobremesa.

Como tinha sido relapso! Quando foi que esquecera de apresentar à sua caçula, que tanto gosta de sorvete, uma taça de sundae? Ele não sabia. Só tinha a certeza de que iria reparar esse erro o mais rápido possível. Afinal, nada como uma separação para deixar um pai comovido e aflito para realizar os desejos de sua filhinha.

Lembrou de um restaurante em frente à praia. Lá eles deveriam ter a guloseima de que sua filha tanto necessitava e ele ainda poderia desfrutar de um chope geladinho com a maravilhosa vista da orla de Santos, cidade que teve de deixar para trás ao sair de casa.

O garçom veio trazer o cardápio. O pai logo perguntou:

- Vocês têm sundae.

- Temos sim.

- Então veja um para ela e um chope para mim.

Era uma das primeiras vezes que ela via seu pai não perguntar valores antes de realizar uma compra. O garçom, comanda nas mãos, quis saber da pequena:

- Qual sabor?

- Chocolate!

- O que você quer que acompanhe o sorvete?

- O que tem?

O funcionário recitou uma enorme lista, da qual ela conseguiu entender a primeira parte:

- Chantili, castanha, confeitos, coberturas de chocolate, caramelo, morango…

-Quero tudo – respondeu a menina, sem mudar a fisionomia, ou o tom de voz.

- Tudo?

- Hã hã!

Pouco tempo depois veio o garçom com uma taça gigante. A menina que, aos olhos do pai, era tão miudinha e frágil, ficou ainda menor por detrás daquele balde de sorvete e cremes. Na verdade, ela praticamente sumira.

Mas se alguma coisa chamava ainda mais a atenção do que de costume, eram seus olhinhos ‘pretinhos de jabuticaba’. Cresceram, saltaram das órbitas e brilhavam tanto que ofuscavam a cereja de gelatina no topo do copo.

Os olhos rasgados da garota devoravam aquela taça mais rápido que a boca.

O pai, bebericando seu chope, foi acompanhando fascinado aquele espetáculo único que é a sublime arte infantil de se deliciar das simples coisas da vida.

O chope perdeu sabor naquele momento, pois ele só conseguia sentir o gosto sensacional de proporcionar tanta felicidade a olhinhos tão pidões.

Acordou cedo, antes mesmo do relógio tocar.

Estava ansiosa, aflita. Nunca havia aparecido em rede nacional. Quando teve sua oportunidade, quis agarrá-la com unhas, dentes, coração e suor. Foi o que fez.

Teria um link ao vivo no jornal ‘da hora do almoço’ para entrevistar uma personagem no Dia Internacional da Mulher.

Pensou a semana inteira, perdeu noites de sono. Tudo para ter uma ideia diferente do que sempre mostram. Era uma feminista e queria uma homenagem justa para tal data.

Sabia que, no jornal das 13 horas, não iriam querer que ela falasse sobre mulheres queimadas em fábricas, mulheres violentadas, mulheres vitimadas.

Seu espaço deveria ser preenchido com um belo exemplo para o público, pois outros jornalistas mais experientes iriam entrevistar autoridades, sociólogos, sexólogos, promotores e quem mais pudessem, para dar uma cobertura bastante variada ao assunto.

Mas como trazer novidade a uma matéria que é realizada todos os anos nos mesmos moldes? Pensou em achar uma mulher que fizesse um serviço antes exclusivo dos homens. Não, muito batido. Pensou em pegar uma batalhadora, cheia de filhos, os quais dependem apenas dela para viver, mas não.

Lembrou das mulheres que venceram o câncer. Daquelas que se engajam na luta dos outros por uma sociedade mais justa. Mas tudo isso já havia sido exaustivamente falado em todos os meios de comunicação.

Não tendo nada melhor como pauta, foi atrás da mais velha senhora de sua cidade. Ela, mais do que ninguém, teria cacife para falar sobre o Dia da Mulher, pelo menos experiência no assunto, tinha de sobra:

- Boa tarde a todos. Estamos ao vivo da cidade de Cabrobró do Oeste, com a dona Gertrudes. Aos 113 anos de idade, é a mulher mais velha de toda a cidade: Dona Gertrudes, a senhora que criou sete filhos, dezenove netos e cinco bisnetos, no alto de sua sabedoria, conta para a gente – o que a mulher quer no dia de hoje?

- Dar.

- Como? Um lar? Da família? É isso, dona Gertrudes?

- Não, minha filha. É dar mesmo. É disso que a mulherada dessa cidade precisa. É disso que elas gostam.

Vermelha, a repórter gagueja:

- Vo-voltamos aos nossos estúdios.

O celular de Ronaldo dá sinal de mensagem. Ele tira o aparelho do paletó, tentando disfarçar o movimento em meio à reunião chatíssima que se estendia além de seu horário de trabalho:

-Cadê você? Estou te esperando…PELADINHA!

O rosto de Ronaldo enrubesce na mesma hora. É como se a voz de Irene ecoasse na sala e interrompesse a reunião, deixando todos na mesa mudos.

Mas a verdade é que ninguém nem percebeu, ou nem ligou para Ronaldo, seu celular e a mensagem que ele, desconcertadamente, tentava tirar o mais depressa possível do visor.

Lembrou do dia em que Wellington, seu colega de setor, viu cair um pequeno bilhete do blazer de Ronaldo e resolveu esticar a mão para devolvê-lo. Antes, lógico, espiou as letras e sorriu com ar sacana para o amigo.

Uma caprichosa letra feminina dava o recado:

- Usei o perfume que me deu. Passei no seu lugar favorito: o entrecoxas. Beijos

Maliciosamente, o amigo logo concluiu que tratava-se de uma amante. Porém, era apenas mais um dos indiscretos bilhete da  esposa, mas como dizer que aquelas palavras eram dela? Não queria que a imagem de Irene fosse ligada a mensagem tão, tão, tão…

Enfim, preferiu deixar que o amigo acreditasse na existência de uma outra. O problema é que Wellington sempre fora muito imaginativo e acabou por crer que além de existir uma amante, ela era do escritório. Quando Ronaldo deu por si, já havia bolão e escutas no seu ramal telefônico para descobrir quem era a ‘safadinha’.

Voltou para casa com a história do entrecoxas na cabeça. Ah, o entrecoxas. Local mais agradável no corpo de uma mulher não há. E olha que ele já havia conhecido vários, diversos, e todos eles… e, ahhh, todos… todos eles. Que beleza! Que verdadeira maravilha da humanidade.

Se fosse Ronaldo quem listasse as sete maravilhas do mundo, com certeza o entrecoxas estaria no topo da lista. Depois dele, bem depois, a dobrinha entre o bumbum e a coxa e também o umbiguinho. Que delícia!

Tão absorto estava no entrecoxas que não viu o ciclista à sua frente:

-Catapuft! – Foi bicicleta para um lado, ciclista para outro e sacola de compras no meio da rua.

Pensou que teria matado o rapaz, mas foram apenas algumas escoriações e uma roda amassada. Tirou o dinheiro que tinha na carteira, e um cartão:

-Qualquer problema, me ligue. Se o conserto da bicicleta sair mais caro…

O ciclista pensou em xingá-lo, mas tinha mais o que fazer e foi embora resmungando.

Ronaldo entrou no carro, não queria perder nem mais um minuto com aquele acidente idiota. Pensava só em chegar o mais rápido possível em casa para poder… ahhhhh, o entrecoxas!

Pensou naquilo e lembrou do aroma de sua esposa. Lembrou das notas de perfume misturadas a um leve cheiro morno de um início de suor.

Tinha certeza que poderiam colocar mil mulheres numa mesma  sala, luz apagada, que ele saberia diferenciar o cheiro de sua mulher. Não fungaria o cangote, nem o topo da cabeça, ou as axilas. Não! Cheiraria lá, no magnífico e fascinante E-N-T-R-E-C-O-X-A-S.

Estava ele mais uma vez perdido em lugares alheios, quando se deu conta de ter pegado o pior caminho que ele poderia escolher. Um trânsito absurdo fechava a avenida em que estava por uns dois ou três quilômetros pelo menos.
Resolveu pegar um atalho, passando por cima do passeio e dando a meia volta.

Se deu mal, é óbvio. À sua frente estava uma viatura da CET e não adiantaria ele explicar a urgência do seu entrecoxas. Mesmo porque, pela cara do agente de trânsito, fazia tempo que não via um.

Chegou em casa tarde, quase madrugada. Irene realmente estava nua, na cama, mas já dormia fazia mais de uma hora. De bruços, com uma perna por cima do travesseiro que roubara do marido, sem querer, deixava que ele avistasse parte, mas não tudo, do tão excitante objeto de adoração de Ronaldo.

Ele não teve dúvidas, pegou a toalha de banho e foi tomar uma ducha gelada para ver se conseguia tirar o entrecoxas da cabeça.

Ele tinha o dinheiro certo, contado, para pagar suas dívidas e manter-se até o final do mês. Quantia conseguida com seu suor, seu trabalho. Era puro orgulho.

Mas no caminho para o lar, passou em frente a uma casa de apostas. Podia ter pego outra rota, algum desvio que não o fizesse estar ali, mas parece que seu inconsciente não queria dar moleza.

Lá de dentro, um cheiro de notas usadas de real, bafo de álcool e cigarro misturados puxavam-no como um ímã. Lembrou das advertências dos amigos, da família, das pessoas que o deixaram por causa do vício.

Tentou continuar seu caminho, tentou ser forte. Mas de forte, só tinha o cheiro de colônia de barbear de uma marca popular.

Deteve-se diante da casa, os pés pesavam como pedras presas à calçada. Não conseguia nem entrar no estabelecimento, muito menos continuar a trajetória.

Poderia ter voltado do trabalho sem entrar ali. Sabia que podia. Mas a adrenalina, o suor nas mãos, o frio na barriga, a tremedeira… nenhuma segurança financeira ou emocional lhe proporcionavam esse prazer que só o perigo, o desconhecido, o risco, podem dar.

Passaram-se alguns segundos até que tomasse uma decisão. Foi ao guichê e apostou todo o seu salário no cavalo mais bonito, mais festejado, mais bem treinado, mais admirado. Porém, apostou no cavalo errado e perdeu tudo.

Saiu derrotado, desiludido, amargurado, envergonhado. Do gostinho libertador da aventura, sobrou apenas a ardência seca da pinga que comprou com os últimos trocados que encontrou no bolso.

Sentado ali, na mureta da Ponta da Praia, o menino sentia sua cabeça encher-se e esvaziar-se de caraminholas, num movimento semelhante ao das idas e vindas de ondas do mar. Enquanto a irmã molhava os pés na beira d’água, com as calças da escola dobradas até quase o joelho, o menino jogava pedrinhas contra as ondas. Atitude igual era a de seus pensamentos contra o que sentia dentro do peito.

Quem olhasse aquela cena – um menino a contemplar a imensidão do mar e a menina a brincar, pés descalços ‘chapinhando’ a areia molhada – teria as melhores e mais gostosas memórias da infância. Mas quem sabe o que se passa no coração daquele menino? Quem consegue imaginar a dor e a aflição que ele sente ao pensar naquele doce rostinho da garota da escola?

A irmã interrompe seus pensamentos:

- Vamos! Assim perdemos a barca. Mamãe vai ficar preocupada.

- Me deixa! Me deixa!

O menino descobriu o que é o amor da pior maneira possível. Conheceu a paixão e suas mais terríveis consequência na forma de uma linda garota de sorriso meigo e olhos espertos. Sorrisos e olhos que, desesperançosamente, não davam a mínima para o garoto. Ignoravam-no sem a menor cerimônia.

- Perdemos a barca. Mamãe vai ficar furiosa! – diz a irmã tentando tirá-lo daquele transe em que se encontrava.

O menino nem liga. Tem, com toda razão, assunto muito mais importante para tratar. Afinal, há algo mais urgente que a dor de amar? Como deixá-la para depois? Alguém já falou para uma dor de cabeça aparecer mais tarde, porque agora, sinto muitíssimo, tenho muito trabalho a fazer? Não, pois não adianta, a dor quando vem, não vai embora, solícita, por você ter outros planos para o seu dia. O mesmo acontece com as aflições da paixão.

Já tentara de tudo para chamar a atenção dela. TUDO – puxões de cabelo, trombadas no recreio, recados anônimos na mochila – mas nada, absolutamente nada, parecia abalar aquela garota.

O menino, no alto dos seus nove anos, não conhecia lá muitas dores além daquelas de criança: uma diarreia após abusar de doces no Cosme e Damião, um grande ralado na perna ao cair no asfalto durante uma disputa de bola e uma injeção que o deixou mancando o dia todo. Mas apesar de não ter sofrido muitas dores durante a vida, sabia, tinha certeza, que dor pior que aquela nunca iria sentir.

A irmã, já impaciente, puxa das mãos dele o caderno de lições onde escrevia um poema para sua amada:

- Será que assim você volta para a terra e podemos ir embora? Está muito calor, estou com sede e a mamãe vai ficar uma fera com a gente!

Ele correu com toda a força que tinha nas suas perninhas magras e espichadas de garoto em crescimento, agarrou a irmã pela gola da camisa, puxou o caderno das mãos dela. Voltou para pegar as mochilas, jogando uma delas contra a irmã, que foi ao chão:

- Vamos. Assim você para de me perturbar.

O menino entrou na barca calado e assim ficou. A irmã começou uma tagarelice que só parou ao verem a cara enfezada da mãe, que os esperava do outro lado da travessia.

Voltaram para casa debaixo de puxões de orelha e safanões. E por um breve momento, o menino pôde esquecer as angústias do coração, afinal tinha dor mais urgente a lhe esquentar a bunda.

Já se passaram seis meses, mas Luciana ainda estranha quando o relógio marca mais de oito da noite e Felipe não entra correndo pela porta por estar atrasado para o jantar.

A rotina da casa continua a mesma, mas Luciana ainda se pega esperando um beijo na nuca quando prende o cabelo em coque, ou um abraço apertado quando vira de costas na cama de casal.

Sente falta até das broncas que levava de Felipe, quando ela deixava a maquiagem espalhada pela bancada de trabalho dele, por estar encima da hora de sair para o trabalho.

Luciana ainda guarda as mensagens de texto que eles trocavam por celular e muitas vezes deixa de fazer um serviço, ou de sair para fazer uma compra, ou ir ao banco, para relê-las. O que a entristece é que, como ontem e nos dias anteriores, não recebeu nenhum recado novo.

Ela tem se esforçado para deixar esta mania de lado, mas quando se dá conta, está tendo mais uma conversa imaginária com Felipe. No banho é ainda mais inevitável. Os assuntos vão surgindo e, quando percebe, já contou tudo sobre seu dia de trabalho, sobre os últimos acontecimentos na família, seus planos para o futuro e as dificuldades financeiras.

Ainda se pega espremendo os olhos ao lembrar do belo sorriso do marido e das gargalhadas que deram juntos nas desastradas férias que passaram, numa pousada de higiene duvidosa, no litoral sul de São Paulo.

Luciana olha novamente o relógio. Já são mais de oito e meia da noite. Guarda o prato que reservara para ele. Por causa daquele infeliz motorista de caminhão, daquela maldita estrada e de uma falta de sorte de estar no lugar errado, na hora errada, Felipe não vem mais para o jantar.

 

 

Viu-se sozinha. Perto dos quarenta. Sem filhos, sem marido, com um emprego de merda, as contas atrasadas, longe da família, numa cidade que não era a sua.

Podia até ajoelhar-se. Implorar desesperada. Tentar uma reconciliação. Mas, não. Podia também voltar para a casa dos pais. Sem dinheiro, sem vida própria, sem dignidade. Não.

Preferiu ficar por ali mesmo. Ao menos por enquanto. Reconstruir o que não tinha sido. Reviver aquilo que não havia vivido. Transformar seus delírios em realidade.

Estava cansada, esgotada. Tomou um comprimido e foi dormir. Quem sabe amanhã não apareça uma ideia para sair dessa de uma vez por todas?

A grande ideia não veio, mas o relógio despertou às cinco e meia da manhã como deveria. Levantou sonolenta, tomou uma ducha e colocou seu uniforme, enquanto bebia um gole de café.

Foi pegar o ônibus para o trabalho no mesmo horário de sempre. Afinal, a rotina não podia esperar sua vida resolver passar.

Quase caiu ao enroscar o pé no lençol que se estendia da cama até o meio do quarto. Pegou uma bolsa de viagem e colocou algumas de suas coisas.

Calçou os sapatos já no corredor que levava à sala. Ainda se abaixou para pegar o álbum de fotos do casamento que havia sido arremessado contra a parede.

Colocou-o com carinho sobre a mesa da sala. Viu o tapete manchado pelo vinho derramado e tentou pular os cacos de vidro em vão, pois pisou num grande pedaço de vidro pontiagudo que ficou espetado na sola de seu sapato italiano e acabou por machucar seu dedo, ao tentar arrancá-lo.

Procurou os óculos e aproveitou para fechar a porta da geladeira que ficara aberta durante a longa discussão.

Ainda ouvia os soluços que vinham do quarto, quando socou de qualquer jeito seus projetos dentro da pasta de trabalho. Ainda bem que havia feito cópias, porque achava difícil conseguir salvar alguma coisa do seu notebook que foi parar do lado de fora da casa.

Sentiu um aperto no peito, mas mesmo assim abriu a porta, olhou o relógio – 11:43. As rodas da mala que carregava arrastavam pedaços de seu passado: fotografias, cacos da louça que herdara de seus pais, cds com suas músicas favoritas, uma aliança de ouro, a certidão de casamento amassada.

Era como se pisoteasse parte de sua vida e fazia isso literalmente. Pensou em trancar a porta, mas resolveu deixá-la entreaberta. Afinal, talvez acabasse voltando.

Ter uma ninfomaníaca na própria cama é o sonho de dez entre dez homens que realmente gostam de mulher. Com Frederico não era diferente. Para ele, mulher boa é aquela que topa tudo. De um sexo oral às sete da manhã, à uma rapidinha num banheiro sujo de bar.

Quando conheceu Daniela, teve a certeza de que seria a mulher de sua vida. Além de ótima companhia, de terem várias afinidades, de ser inteligente, bem sucedida e bem resolvida, era uma leoa na cama.

Em poucos meses, estavam morando juntos e a vida sexual estava cada vez mais ativa. Fred se sentia nas nuvens, afinal, enquanto seus amigos reclamavam da falta de libido de suas esposas ou companheiras, ele ria sozinho por saber que ao chegar em casa teria um mulherão pronto para levá-lo à loucura.

Porém, o que no início parecia o paraíso, começou a assemelhar-se a um martírio. Fred já não sabia o que era vida social, futebol de domingo, cerveja no final do expediente. Começou a emagrecer. Para aguentar o pique da companheira, tomava energéticos antes de voltar para casa.

No trabalho, não tinha o mesmo rendimento. Em casa, não tinha mais diálogo com Daniela. Chegava a sentir falta das idas ao parque, dos asseios de fim de tarde, das visitas àquela tia velha.

Frederico ficou cada vez mais calado, se afastando lentamente, recusando aqui e ali, até que o sexo passou a ser apenas uma obrigação que ele cumpria sem muito ânimo.

Dani começou a se preocupar. Algo não ia bem na sua relação. Fred estava estranho, distante, avoado. Lembrou das histórias que escutava nos salões de beleza e constatou o óbvio. Frederico tinha outra e não era de hoje.

Passou a bisbilhotar as mensagens que recebia no celular. A fuçar o computador à procura de pistas. A prestar atenção às ligações recebidas pelo marido.

Sem muito exito, resolveu pagar um detetive particular para fazer o serviço. Pouco tempo depois, ele marca uma reunião sem antecipar muitos detalhes:

- Minha senhora, o que vou lhe mostrar pode parecer estranho, mas é a mais pura verdade.

- Pode dizer, estou pronta para tudo. – respondeu, Daniela, resignada.

- Seu marido está se encontrando com outra mulher.

- Eu sabia! Por isso está tão frio ultimamente.

- Mas tem outra coisa.

- O que?

- Apesar deles se verem todos os dias, sem exceção…

- Sim, continue, estou preparada.

- …eles não fazem sexo.

- Como assim.

- Ao que parece, eles têm um relacionamento casto. Seus passeios são sempre ao ar livre e interceptei uma conversa na qual essa mulher pedia para que ele a levasse a um motel.

- E ele?

- Frederico suplicava para que ela compreendesse seus limites, pois não queria que o amor deles fosse corrompido pelo sexo, pela volúpia. Veja, tenho aqui todas as fotos e a transcrição de todos os diálogos telefônicos entre os dois.

Daniela pegou o dossiê, viu todas as fotos, leu todas as folhas e, sem dizer palavra, foi para casa.

Ficou sentada no sofá da sala até que Frederico chegasse do serviço. Beijou-o demoradamente, pegou ele pela mão e o levou para assistir à uma comédia romântica estrelada por Richard Gere, com direito a guaraná, pipoca e bombons.

 

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